Para o artista, querer não é poder, mas apenas poder querer. Disso se faz a sua glória e o seu desastre. Há todavia aí uma glória sem desastre nenhum, que é habitar num momento de ilusão o palácio encantado do mistério e maravilha. E é o pouco que é bastante. O que fica depois são os despojos desse tudo.

Deus inventou o sexo, nós inventámos o amor. Ele tinha razão.

Tenho tantas saudades de ser eu. De ver. De me deslumbrar numa iluminação.

Ama o próximo como a ti mesmo. É um grande risco. Eu, por exemplo, detesto-me.

Realizei uma obra, fiz nela a minha proposta, disse o que tinha a dizer. (...) Publiquei Para Sempre.

Não comunico com o mundo pelos pés ou pelas mãos ou os olhos. Comunico pelo bico da caneta. E por ele transmito o influxo da vida como pelo dedo de um Deus.

Somos um país de analfabetos. Destes alguns não sabem ler.

Não se pode imaginar uma cor, fora das cores do espectro solar. Não se pode ouvir um som, fora da nossa escala auditiva. Não se pode pensar, fora das possibilidades da lingua em que se pensa.

Achariámos rídiculo que se pudesse dizer, por exemplo, de um amoroso repudiadom que ele sofreu três polegadas de vexame ou meio quilo de opróbrio. Mas é exactamente o mesmo que acontece ao dizer-se que se esteve três quartos de hora à espera da namorada no café, porque a paciência não tem nada a haver com o percurso solar.

Admira-se uma obra com a inteligência e ama-se com a pessoa toda. Por isso é mais económico admrar do que amar.

A arte inscreve no coração do homem o que a vida lhe revelou sem ele saber como.

A arte nasce de uma solidão e dirige-se a outra solidão.

A arte tem o dom de dar beleza. mesmo ao que nasceu e se criou para a fealdade.

A beleza é do imaginário e a imaginação é uma forma de se possuir o que não se possui.

A Ciência não é um meio de "explicar", mas apenas de "constatar" o que descobriu provisoriamente nisso que constatou.

A eternidade não se mede pela sua duração, mas pela intensidade com que a vivemos.

A grande revolução da poesia de Pessoa foi a sua intelectualização.

Há mais sossego na simples melancolia do que em todas as alegrias muito altas.

Há monumentos ao soldado desconhecido. Mas não há só um só aos heróis a que não calhou poderem sê-lo.

A história está cheia de grandes renovadores dela. Ou dos que lhe falharam a renovação. Porque é que Cristo acertou em dois milénios e Marx não chegou a acertar num século?

A morte apenas subscreve o que já somos como excedentários. E há só que deixá-la rubricar à pressa o nosso destino, que tem mais que fazer.

A música é sempre anterior a si, de tempo nenhum, de um absoluto não presentificado, de um tempo anterior ao tempo, de um fora dele, da eternidade.

Nas utopias que até hoje se imaginaram faltou sempre imaginar o que aconteceria depois. Que se imagine uma vida em que se realizasse tudo o que se desejasse. Alguma coisa faltaria ainda em tudo em que já não faltava, e não saberiamos o quê. É isso que não sabes que é fundamental.

Não há pergunta sobre o para quê de uma flor que lhe tire o encantamento. O sentido de ser é o ser.

Nós exigimos a liberdade mas igualmente a sua razão de ser. Que é que justifica uma luz que nada ilumina e se perde no vazio?

Nós sofremos com a morte porque não nos foi infligido o horror de não podermos morrer.

O comunismo distingue-se fundamentalmente do facismo porque foi o primeiro.

O corpo entende-se, a alma compreende-se.

O corpo explica-se e pode discutir-se. A alma é inexplicável e só há que recriá-la em nós ou recusá-la.

O estilo de um grande artista, ele próprio não o sabe. Como a sua voz. Ou os seus gestos. Ou a mímica do seu rosto quando fala. Porque quando o souber tê-lo-ia já perdido.

O homem é um ser fictício em todo o seu ser. E é precisa Morte para ele enfim ser verdadeiro.